Os elementos terrestres

Título: Os elementos terrestres e outros poemas
Autor: Eunice Odio
Tradução, seleção e introdução: Luiza Nilo Nunes
Fotografia de capa: Feteme Fuentes
1ª edição: setembro de 2020
Características: 176 páginas (A5)/ Edição Bilingue
PVP: 10,00€ (portes de correio incluídos)

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Vem
Amado

Provar-te-ei com alegria.
Tu sonharás comigo esta noite.

Teu corpo terminará
onde comece para mim
o tempo da tua fertilidade e da tua agonia;
e porque estamos repletos de angústia
o meu amor por ti nasceu com o teu peito,
é que te amo em princípio por tua boca.

Vem
Comeremos no lugar da minha alma.

Antes que eu te abra o meu corpo
como o mar precipitado e cheio
até ao crepúsculo dos peixes.
Porque tu és belo,
irmão meu, eterno meu dulcíssimo.

Tua cintura onde o dia resplandece
impregnando com o seu aroma todas as coisas,

Tua decisão de amar, de súbito,
desagua inesperada na minha alma,

Teu sexo matinal
onde repousa a orla do mundo
e se dilata.

Vem
Provar-te-ei com alegria.

Feixe de lâmpadas será a meus pés tua voz.

Falaremos do teu corpo
com alegria puríssima,
como crianças descobertas a cuja vertigem
mal foi revelada outra criança,
e desnudada sua incipiente chegada,
e conhecida em sua idade futura, total, sem diâmetro,
na sua corrente genital mais próxima,
sem fluxo, em sufocante solidão.

Vem
provar-te-ei com alegria.

Tu sonharás comigo esta noite,
e nossas bocas urdirão funestos perfumes.

Povoar-te-ei de cotovias e semanas
eternamente nuas e obscuras.

“Outros aspetos que distinguem a sua obra poética – e novamente incidimos na ideia de linguagem enquanto fruto da experiência do sagrado ou do êxtase místico, sem descurarmos que a linguagem da poesia, por exemplo para Bataille, é ela própria êxtase, erotismo e transgressão, sendo por isso insubmissa às leis da razoabilidade – é a abordagem original e surpreendente de temas bíblicos, bem como a utilização de vários elementos da liturgia cristã, então reinventados e transgredidos pelo fenómeno poético, aquando da exploração de tópicos como a feminilidade, a liberdade sexual e a paixão. Se os seus primeiros poemas tocam ainda em alguns temas circunstanciais e em certa medida alheios à mundividência hierática – a maternidade frustrada, a morte de um amigo, a visita de outros – ou apresentam um carácter político esquerdista, uma elevada consciência dos problemas sociais, mais concretamente da Guerra Civil Espanhola, plasmada no poema “Nube y ciel mayor”, Los elementos terrestres (1948) constituem uma segunda e extraordinária etapa evolutiva. Reunião de oito poemas consideravelmente extensos e em verso livre, com uma sólida unidade orgânica, mas de tal forma independentes entre si que se separados conservam a sua identidade temática e integridade lírica, este livro de um insólito lirismo erótico-mítico apresenta uma visão cósmica da realidade que poderá plausivelmente comparar-se ao Cântico Espiritual de São João da Cruz. Porém, a fonte de onde afluem os versos, com rigor de cirurgião e alegria de demiurgo, será o Cântico dos Cânticos salomónico”.

da Introdução por Luiza Nilo Nunes